Conselhos de um ex-caloiro II

Parabéns caloiro. Chegaste ao fim do teu primeiro ano. Do teu melhor ano. Espero que te lembres do que eu disse. E que todos esses jantares, esses cafés, dias perdidos à noite, finos, estudos, conversas de horas a fio e abraços sentidos, todos esses, espero que se tornem das tuas melhores memórias. Que possas ir dormir à noite sabendo que não deixaste nada para fazer, e que a cada dia que passa vais fazendo cada vez mais parte da cidade que te acolheu. Como eu te disse. Continue reading “Conselhos de um ex-caloiro II”

E de tanto gritar, vira-se cantor

Pergunto, a quem quer que tenha alguma vez visto um despique, ou mesmo uma simples praxe, se há algo que seja tão intenso como um curso inteiro a cantar. Ou, como se diz, a berrar, alto e bom som, tentando gritar mais alto que todos os outros, até se ficar rouco e vermelho de tanta garra. Não há quadro mais bonito na Praxe, para além do típico traçar da capa e Serenatas. Quando as vozes nem se afinam nem sintonizam, quando tudo pode correr mal e nem costuma correr bem, quando se vê as veias na garganta de tanto puxar uma música – é um momento mágico. Onde o que mais importa é berrar pelo curso, deitar tudo para fora, tripas, sangue, coração. Quando se bate no peito porque não se consegue exteriorizar mais o que se sente. Continue reading “E de tanto gritar, vira-se cantor”

Do Padrinho:

Coimbra é, e sempre será conhecida, pela cidade que liga pessoas para sempre. Ninguém quer verdadeiramente abandonar Coimbra e o que passamos nesta cidade são memórias de uma vida. Temos a sensação de compreender esta cidade, e fomos aprendendo a conhecê-la, desde os recantos secretos da Alta à Portagem numa tarde de pôr-do-sol. E devemos muito ao Mondego, que nos uniu às pessoas que nos escolheram e que, eventualmente, abriram Coimbra aos nossos olhos. Continue reading “Do Padrinho:”

De memória embaciada

Hoje é o teu ultimo dia em liberdade. A noite chega-te fria e sufocante e os copos estão embaciados e sonolentos, as tuas amigas já saíram, já foram para as suas vidas sôfregas e amargas que tanto ansiaram com o marido imperfeito que não pediram. A bebida chega-te perto, a liberdade escasseia-te. É o teu último dia, lembra-te. E a cada golada de gelar o peito, os efeitos iam-se alterando, luzes, efeitos, o que é mau parece ser bom e cada linha de silhueta desfocava-se com o olhar baço. És agarrada, e não te importas com quem, és puxada, levada dali sem muita força, e sentes-te bem. Depois, percebes que é o teu último dia sem liberdade. Pavor, raiva, frustração sem reflexos e raiva na alma. Tarde demais, perante tamanha dor e sofrimento embutido de nojo. Liberdade? É a liberdade mental, sem pudor, sem tabu, a liberdade mental que importa. E essa pode ser tão facilmente tirada, onde os nossos pensamentos deixam de ser nossos, mas de outro alguém, violentados como foram. Se nos tiram a nossa liberdade nada somos, meros corpos translúcidos de solidão eterna. Hoje foi o teu último dia em liberdade, e o copo que levavas contigo ritmou o sabor da noite quando se partiu no chão gelado de amarras mentais.

Carta ao Pai Natal

Querido Pai Natal,

Olá, eu sou a Inês. Fiquei chateada contigo o ano passado porque não apareceste. Eu tinha muita fome, Pai Natal, e só te tinha pedido um pouco de comida para mim e para a minha mamã. Nós estávamos sozinhas e ninguém nos ajudava, então eu tinha-te pedido a ti, não te lembras? Fiquei triste porque não nos trouxeste nada, e nós é que precisávamos mesmo, não eram os meninos da minha escola a quem trouxeste carrinhos de brincar. Fiquei um bocado desiludida, desculpa, é que a minha mamã dizia-me que o Pai Natal era bom e reconhecia quem precisava. Continue reading “Carta ao Pai Natal”

Abraço-te com a minha capa

O melhor de Coimbra não se vê. Não está lá visível, palpável. A beleza desta cidade de estudantes não é simplesmente a vista do Penedo, o brilho do Mondego ou as folhas caídas do outono na Praça. A beleza maior que eu sinto na cidade dos amores é transmitida pelo fado, pelo ensinamento, pelas histórias. Porque nenhum dia é igual ao outro e as memórias serão eternas. Se eu hoje me sentar à mesa com um antigo universitário, irei deliciar-me com as suas histórias, e ele terá todo o prazer em contá-las. É uma jornada, um saber empírico que se vai ganhando e, mesmo sem repararmos, cresce em nós uma verdadeira paixão. Um dia, enquanto caloiro, inocente e solitário, perdi-me por Coimbra. Fui sozinho enfrentar as subidas e descidas, descobrir os recantos. Vi o Mondego, a Alta, subi até à Universidade. E sempre que faço essa jornada, nunca a consigo contar da mesma maneira. Porque cada pormenor conta, cada sítio é mágico e cada rua única. Nesse dia, enquanto caloiro, na minha primeira semana, foi só isso que eu consegui ver, um Mondego que refletia o sol, uma Alta que me deixou ofegante de tanto subir, uma Universidade sem cor. Nesse dia, Coimbra, eu perdi-me em ti. Continue reading “Abraço-te com a minha capa”

Borrões digitais

O café estava vazio. As luzes dos semáforos incidiam sobre os vidros esfumaçados do tabaco e ideias dos clientes. Buzinadelas, gritos de pressa em chegar a casa, travões. Era o hino habitual para aquela hora da tarde, quando os carros se apertavam em filas de fim-de-semana. Era já noite, as luzes eram já borrões para quem via de cima. A varanda do hotel onde estava alojado tinha vista direta para este aglomerado de confusões, contrastáveis com a pacificidade do meu quarto. À janela, apreciava o caos e desordem da estrada. As pessoas não se conseguiam ver dentro dos carros a andar, imunes ao que os rodeava, hipnotizados pela rotina. Eram um borrão na minha vida, não davam para analisar. Com as suas vidas aborrecidas e precárias, o rosto de uma cidade opulenta e capitalista. Continue reading “Borrões digitais”

Um conto de autocarro

Uma vez conheci um homem. Idoso, de cabelos cinzentos compridos a correr pela cara, barba desgrenhada, que escrevia todos os dias numa resma de papel que levava consigo para todo o lado. Rabiscava e escrevia e desabafava, mas ninguém lia o que escrevia. Fazia a mesma viagem de autocarro todos os dias para ir trabalhar, sentado no mesmo banco. Conheci-o aí, nas minhas viagens à cidade grande dos adultos e do mundo encantado do dinheiro e dos bancos e das gravatas. Continue reading “Um conto de autocarro”

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