Conselhos de um ex-caloiro II

Parabéns caloiro. Chegaste ao fim do teu primeiro ano. Do teu melhor ano. Espero que te lembres do que eu disse. E que todos esses jantares, esses cafés, dias perdidos à noite, finos, estudos, conversas de horas a fio e abraços sentidos, todos esses, espero que se tornem das tuas melhores memórias. Que possas ir dormir à noite sabendo que não deixaste nada para fazer, e que a cada dia que passa vais fazendo cada vez mais parte da cidade que te acolheu. Como eu te disse.

Vive muito enquanto ainda podes. Aproveita a Queima que chega aí, já que o resto são fitas e não demorará até as queimares. Aproveita os últimos jantares e manda a casa abaixo. Leva os amigos que fizeste para a vida (tão cedo e já sabes quem são). Mandem a casa abaixo, todos juntos. Vai ao ponto mais alto da cidade onde estudas, e vê aquilo que se tornou a tua casa. Faz das tuas noites continuação dos dias, faz das tuas lembranças um baú de segredos, histórias, constantes aventuras. Desafia-te a ir mais longe, que ainda tens tempo para isso. Não adies nada, que das maiores aventuras nascem as melhores histórias, e das melhores histórias as maiores memórias. Antes que o ano acabe e deixes algo por terminar – o ciclo fecha-se, caloiro, e começa a doer antes do fim. Leva contigo as lembranças – o tempo não as apaga. Leva contigo a saudade – faz parte. Leva contigo a alegria de ser caloiro, e lembra-te dela para sempre. Atreve-te a viver o máximo enquanto possas, que o primeiro está a acabar.

Faz de tudo para que, quando trajares, de facto, pela primeira vez, possas dizer que o peso que tens aos ombros não é um sufoco e sim uma responsabilidade. Para que quando vires ao longe a serenata, qual multidão de preto misturado com lágrimas, possas sentir dentro de ti o fado mais bonito do país. Para que quando te traçarem a capa, possas sentir o orgulho desmedido e a beleza da vida errante e boémia que é o viver de estudante.

Sei que houveram dias que nunca te esquecerás, porque também por aí passei. A primeira praxe, o batismo, o cortejo. A última praxe, se a vais viver, é dolorosa – quando lá chegarem percebem. Houveram dias que pareceram horas, e noites intermináveis em que brindavas à felicidade. Nunca mais irás ser caloiro, mas se fosse algo normal, perdia a magia e o brilho. Brindar à felicidade, contudo, não pode nem deve ser efémero. Espero que tenhas aprendido a fazê-lo para sempre.

E, para quem que, como eu, estuda em Coimbra: caloiro, não é fácil o que está para vir. Fica ciente, há saudades que duram para sempre. E tu, que vais deixar para trás a inocência do primeiro ano, vais vivê-la. Porque em Coimbra, a saudade nasce em nós ainda antes de termos ido embora, e cada corda de guitarra é mais um traço de nostalgia. Por cada vez que o luar adormece o Mondego, caloiro, espero que te sintas em casa. E lembra-te que nunca estiveste sozinho.

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