O melhor de dois mundos

Sempre fui um interessado por música e, ainda mais, por poesia. A poesia que eu lia por aí sempre me deu um gozo desmesurado de ler e de ouvir, acompanhada de música variada. Lia um pouco de tudo e gostava, ainda que quisesse mais. E, como uma sample conhecida por aí diz, “cada um é alvo incessante das suas influências (…) e entre as influências há as boas e más, negativas e positivas.

Hoje em dia o hip-hop é uma cultura em crescimento, o novo rap surge cada vez com mais facilidade, o horrorcore e o triphop são realidades crescentes, novas zonas de mobilização aparecem pelo país todo, novas experiências dão resultados brilhantes e o público cresce e aceita cada vez mais esta cultura. Eu tornei-me, já há alguns anos, um apaixonado por ela. Pelos beats simples que ouvia na adolescência, pela lírica trabalhada e métrica que só tinha lido até à altura nos poemas dos meus livros. Por flows “homicidas”, pela mensagem que recebia e que tanto fazia parte da minha realidade como me dava a conhecer novos horizontes, novas ideologias, e eu sempre absorvi tudo isso, constantemente, desde então. Eram as letras que me fascinavam acima de tudo. Rasgos de génio, pensava eu, enquanto ouvia Sam. Sentia a força e a atitude do Valete em cada palavra, a astúcia na mensagem de Dillaz. Halloween destacava-se pela imagem que deixava da sociedade, assim como os Dealema e a introdução ao rap do Porto, combativo, mergulhado “nesta cultura da qual eu faço parte”. O interesse no hip-hop norte-americano também crescia, descobrindo Eminem, Nas, Jay-Z, voltando atrás no tempo e ouvindo os clássicos de Notourious B.I.G. e 2Pac, ainda antes de passar a ouvir Kendrick ou Kanye.

Vi pela primeira vez um concerto de hip-hop, num festival não muito conhecido, já algum tempo depois dos primeiros contactos (infelizmente). Vi GROGNation, uns “desconhecidos” do público em geral na altura, e os recém-formados 5-30. Apaixonei-me novamente, quer por todo o flow que os concertos exibiam com os seus instrumentais poderosos, quer tanto pela dinâmica de palco como pelo apelo intensivo à nossa participação. O público ERA o movimento. Senti-me parte de uma cultura que aprendi a amar com o tempo, e nunca me vou esquecer de todas as vezes que levantei os braços a pedir mais depois disso. O melhor de dois mundos, a música e a poesia, o “rhythm and poetry”, a sonoridade das músicas, a facilidade em ouvir, os beats empáticos e rasgados, o scratch, todo o trabalho por detrás dos garfos que era uma prova viva de criatividade e trabalho.

A minha jornada e as minhas influências pelo hip-hop português são comuns a tantos outros, eu sei, sempre ouvi um pouco de tudo, porque o que é bom merece o seu reconhecimento. A minha playlist é recheada de álbuns da velha escola, os clássicos dos clássicos, mas também tem imenso espaço para as mixtapes desta nova geração, desde Profjam, a Mike El Nite, ao “Dread que matou Golias”. Desde os rappers cada vez mais consagrados pelo público, Nerve, Bezegol, Virtus, Puro L, Alcoolclub (e a sua influência de jazz). Desde Here’s Johnny a Lhast na produção. Com Slow J, o eleito.

O hip-hop está vivo. E cresce cada vez mais, levado “aos ombros dos gigantes”, que neste caso é o seu público, os seus seguidores. E Portugal tem o que é preciso para se assumir, e temos talento mais que suficiente para deixar uma marca não só na música como na sociedade. Quanto a mim, revejo-me no que se faz e “fortaleço o meu carácter a um nível profundo”. Deixo-me ser guiado pelas palavras de quem canta, e faço o melhor que consigo, que é escrever sobre aquilo que me apaixona, cada vez mais, a cada beat e a cada refrão.

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