E de tanto gritar, vira-se cantor

Pergunto, a quem quer que tenha alguma vez visto um despique, ou mesmo uma simples praxe, se há algo que seja tão intenso como um curso inteiro a cantar. Ou, como se diz, a berrar, alto e bom som, tentando gritar mais alto que todos os outros, até se ficar rouco e vermelho de tanta garra. Não há quadro mais bonito na Praxe, para além do típico traçar da capa e Serenatas. Quando as vozes nem se afinam nem sintonizam, quando tudo pode correr mal e nem costuma correr bem, quando se vê as veias na garganta de tanto puxar uma música – é um momento mágico. Onde o que mais importa é berrar pelo curso, deitar tudo para fora, tripas, sangue, coração. Quando se bate no peito porque não se consegue exteriorizar mais o que se sente.

Há momentos na Praxe, eventualmente todos, a certa altura, mas há certas experiências que sabemos que nunca iremos esquecer, ficará sempre aquela memória, aquela imagem. Hoje, pude ver 30 caloiros de Jornalismo a representar este curso com tudo o que tinham, frente a todos os cursos de Letras da Universidade de Coimbra, debaixo de granizo e chuva. Se cantaram bem, mal, rápido, lento, a mim não me interessa assim tanto. Porque o orgulho que se sente quando vês amor e paixão ao curso, é indescritível. E eles sentiram no corpo inteiro aquele arrepio, aquele nervoso miudinho e vaidade, que eu também já senti quando foi a minha vez. Tenho a certeza. Um arrepio pelo corpo inteiro, a dizer-nos o quão felizes estamos.

Quem apenas nos observa pode dizer o que quiser. Quem alguma vez sentiu o que é verdadeiramente a Praxe, duvido que tenha algo de mau a dizer. Há quem nos chame “ignorantes”, “fascistas” (!) ou “influenciáveis”, apenas porque envergamos capa e batina e representamos a Praxe do nosso curso e de Coimbra – isto não é uma declaração de ódio. Se ser praxado fosse assim tão mau, a Praxe já tinha acabado há muito tempo. Ninguém é obrigado a participar, mas talvez haja algo que faça ficar. Quem diz que é perda de tempo dedicar tanto de nós a algo efémero como a vida académica, é porque não sabe desassociar os termos: eu levo comigo todos os valores que aprendi na Praxe. Levo comigo todas as memórias. Levo comigo todos aqueles arrepios.

Falo por mim, mas desconfio que fale por muitos outros. Que ser doutor não é, nem nunca foi, vestir capa e batina. Ser doutor é transmitir um ou mais anos de experiências e vivências únicas, não fosse esta vida de estudante o mais nostálgico dos fados. Memórias e amizades de uma vida, criadas entre quem sente o mesmo amor. Seja ao curso, seja à cidade. E é da praxe, que embora a missão de um doutor nunca estava verdadeiramente cumprida, aquela sensação de orgulho é imensurável – quando podemos, finalmente, ver aquele brilho no olhar de um caloiro ao falar de Coimbra, a defender o que acredita, a berrar pelo curso inteiro, e saber que, talvez, um pouco daquela garra e daquela paixão fomos nós que a transmitimos.

Por fim: é da praxe, é de Letras, e é de Jornalismo. É debaixo de granizo que continuamos a berrar. É debaixo das nossas capas que o sol volta a abrir. A Coimbra, e que a culpa seja sempre da praxe, para nosso bem.

 

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