Sofia da Capa Negra

Por Bruno Sousa,  Pedro Silva e Ana Rita Rodrigues. Eternos amantes de Coimbra, eternos amantes da saudade.  

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PARTE I

 

A lua deve estar a projetar um qualquer sumo de luz no Mondego.
Um tunante deve estar a raspar com a unha as cordas de uma qualquer guitarra.

Neste Mund’de Ego, só o Ego do Mondego se legitima porque não se importam com o ego os que o sonham, mas sim com a utopia de o sonho nunca acabar.
Assim é Coimbra.

Coimbra, dos amores, dos doutores,
Cidade errante, onde de boémia disfarçada,
Nasce uma paixão aliciante,
E de noites passadas em copos de branco,
Vai-se sentindo a saudade, velha angústia de estudante.

Velha, porque é nova todos os dias.
Sentida por aquilo que ainda nem acabou.
Restam-nos baladas e sinfonias,
Que dizem “fica” ao invés de “me embora vou”.

Oh Coimbra, não quero escrever mais por ti,
Mas é inevitável, todos os caminhos da minha caneta
E de qualquer outro poeta errante desta academia,
Acabam por te encontrar, no fim do meu verso,
E todos os fados alguma vez tocados à mão de estudante,
Sejam em tua honra embelezados,
Com a força, sabedoria e certeza constante,
Iluminas também os nossos fados.

É de louvor saber dizer que voltarei. Sempre.
Louvor a ti.

Querida mãe, querido pai, então que tal?
Nós ficamo-nos por louvar Demóstenes, Tucídides, Aristóteles e Safo.
Há quem esteja longe do Algarve e do seu sal;
Há quem solte de quando em quando um bafo.

De caduco e perene, aqui, só as folhas do Botânico
De sentimentos, esses, parecem persistentes.
Escondidos em paredes,no Cântico,
E na mudez, depois da pergunta “Então e Coimbra, como te sentes?”

E deixo o meu fumo escorrer por e em ti. Como de costume,
Deixo perder os sentidos, sufocar sempre que te penso.

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PARTE II

 

És única, ó Coimbra cidade sapiente,
Terra de gente em luto constante,
Sentidos de nostalgia desde o primeiro instante
Que te ouvem chorar.
Juro que és terra de amores,
Não pelos que eu em ti tive,
Mas pelo que de ti ficou.

Cada dia um tijolo,
Um punhado de cimento.
Neste muro, neste colo,
Neste mix de sentimento

Muro que não é barreira-deixemos isso para os Estados Unidos.
Porque o estado aqui é só um: o Unido.
Quando os das capas estão feridos,
Recupera-se-lhes o sentido.

Quero ser cativo e preso dentro de ti.
Quero ser o que tu és,
Por seres livre, e transmitires liberdade aos que ficam presos
Em ti.
És a jaula mais linda de todas.

Os braços do Mondego, de cada lado de Santa Clara,
Dão-nos o maior abraço que nos podias dar,
Cujas lágrimas de alegria fazem parte,
De tantas vezes lá fiz voltar.
Rio encantado, ó rio de lágrimas,
De cada saudada deixada,
E almas abençoadas.
Deixo o suspiro apaixonado, por fim,
Quando vejo em ti, reflexado,
O sol, cujo brilho,
Como se diz para qualquer novo amante,
“é diferente do sol do resto do mundo.”

Mostras o capitalismo, de Santa Cruz à Portagem;
Escondes, à esquerda, o século medieval;
No Vale de Inferno, a Miragem
Do leito cheio, a inundar a esplanada estival.
SMTUC a permitir viagem
Ao turista da China ou do Nepal.

Mas, ohhh! Para quê dar níquel,
Quando se te se pode percorrer a passo.
No Troica, à espera o Sr. Manel,
Para mais um desconto fazer no bagaço.

Fim da noite é no Moelas,
A comer a boa da sandocha,
à luz, que não está lá mas existe, da velha Sé.
Pra recuperar, corridinha até Celas
Que isto não acaba penso à falsa-fé.

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PARTE III

 

Pois bem, cidade do meu sonho,
Em ti vi a Cabra matutina lá ao fundo,
No beco das ruas tortuosas,
Caminho de estudantes malfeitores
Que “se vão da lei da sede libertando”.
É algo mágico, percorrer tais ruas,
E amar cada folha que cai das árvores,
No teu Outono carinhoso.
É saber cada teu fado de cor,
Com rifo de guitarra e eterna amizade,
E das bandeiras que hasteavas!
Faço minhas tais palavras!
Faço minhas palavras de ti, Coimbra,
Serem alta e sofia,
Porque para além de alta és gigante,
Porque além de bela, Sofia.

E quando me vou embora, lembro-me de ti
Em qualquer momento.
Todas as esquinas eram momentos,
Todas as ruas eram personagens
Todas as pedras da calçada contavam uma história.
Tudo com sabor a ti.

Quando te encontro novamente,
Ressuscita o sentimento;
Sinto-te como não se sente!

A ninho algarvio volto querendo e não querendo porque em fim te pertenço
Desde quando vi o meu nome no teu
Se fores um deus,
Não serei ateu.

Tanto se profecia, se quer, se faz, se sente e vive
nesse apascento ilimitado.
N’A Balada o compasso lento
Nas rugas dos teus becos sempre o fado.

Traça-me a capa, cidade, que eu sinto orgulho em ser teu estudante.

Por amor à Madalena.

E, sempre que mais madalenas e enos te pisarem, ensina-os ser teu amante.

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