De memória embaciada

Hoje é o teu ultimo dia em liberdade. A noite chega-te fria e sufocante e os copos estão embaciados e sonolentos, as tuas amigas já saíram, já foram para as suas vidas sôfregas e amargas que tanto ansiaram com o marido imperfeito que não pediram. A bebida chega-te perto, a liberdade escasseia-te. É o teu último dia, lembra-te. E a cada golada de gelar o peito, os efeitos iam-se alterando, luzes, efeitos, o que é mau parece ser bom e cada linha de silhueta desfocava-se com o olhar baço. És agarrada, e não te importas com quem, és puxada, levada dali sem muita força, e sentes-te bem. Depois, percebes que é o teu último dia sem liberdade. Pavor, raiva, frustração sem reflexos e raiva na alma. Tarde demais, perante tamanha dor e sofrimento embutido de nojo. Liberdade? É a liberdade mental, sem pudor, sem tabu, a liberdade mental que importa. E essa pode ser tão facilmente tirada, onde os nossos pensamentos deixam de ser nossos, mas de outro alguém, violentados como foram. Se nos tiram a nossa liberdade nada somos, meros corpos translúcidos de solidão eterna. Hoje foi o teu último dia em liberdade, e o copo que levavas contigo ritmou o sabor da noite quando se partiu no chão gelado de amarras mentais.

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