Borrões digitais

O café estava vazio. As luzes dos semáforos incidiam sobre os vidros esfumaçados do tabaco e ideias dos clientes. Buzinadelas, gritos de pressa em chegar a casa, travões. Era o hino habitual para aquela hora da tarde, quando os carros se apertavam em filas de fim-de-semana. Era já noite, as luzes eram já borrões para quem via de cima. A varanda do hotel onde estava alojado tinha vista direta para este aglomerado de confusões, contrastáveis com a pacificidade do meu quarto. À janela, apreciava o caos e desordem da estrada. As pessoas não se conseguiam ver dentro dos carros a andar, imunes ao que os rodeava, hipnotizados pela rotina. Eram um borrão na minha vida, não davam para analisar. Com as suas vidas aborrecidas e precárias, o rosto de uma cidade opulenta e capitalista.

                Nunca antes a tecnologia era duvidosa, essa faceta dominante da sociedade, onde o like era a moeda de troca e o follow um tesouro. Onde os computadores tiravam o lugar aos livros, onde a consola tinha primazia sobre os puzzles e os smartphones, ainda que retângulos, tiraram o lugar à bola e ultrapassaram as fronteiras tecnológicas. Tenho pena que a minha cidade também tenha caído, revolucionada pelo domínio inóspito que aí ia chegar, o surgimento de uma era digital, e tudo era feito numa rede imaginária onde todos entravam e poucos saiam. A minha cidade treme. As pessoas por quem passas na rua parecem ir desvanecendo-se à medida que iam andando, como se só fossem reais quando os telemóveis se conheciam. Depois, deixavam de existir até estarem novamente juntos, não na nossa realidade, mas na virtual. É isso que tem piada hoje em dia, percebem? É que ninguém se apercebe, mas caímos todos. Somos o corpo de uma cidade adormecida pelo beep de uma mensagem. Tenho pena de termos chegado aqui.

                Sabem, é que eu quero voltar a conhecer pessoas. Não pelo ecrã. Por um café a escaldar ou um por uma troca de palavras na paragem. Quero poder sair à rua e perguntar as direções, sair à rua e dar uma moeda ao violinista da Baixa, porque quando um artista de rua me faz parar, merece e bem aquele dinheiro. Quero deixar de escrever para as pessoas lerem num computador, quero escrever para dar o conhecer que, honestamente, isto são palavras num ecrã quando deviam ser em papel, mas em papel ninguém vai ler. Somos borrões incentivados pela amorfia digital. Somos só nós, num carro fechado, a 120 na auto-estrada, porque não saímos da bolha virtual, não seguimos atalhos e trilhos sem saber. Seguimos sem olhar para trás e raramente olhamos para os lados. Se isto fosse um borrão numa folha de papel ninguém iria ler. Só nos falta saltar do carro em andamento, por um bocado apenas, para observarmos os carros a passar de perto. E caminhar para a próxima estação de serviço.

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