Um conto de autocarro

Uma vez conheci um homem. Idoso, de cabelos cinzentos compridos a correr pela cara, barba desgrenhada, que escrevia todos os dias numa resma de papel que levava consigo para todo o lado. Rabiscava e escrevia e desabafava, mas ninguém lia o que escrevia. Fazia a mesma viagem de autocarro todos os dias para ir trabalhar, sentado no mesmo banco. Conheci-o aí, nas minhas viagens à cidade grande dos adultos e do mundo encantado do dinheiro e dos bancos e das gravatas. Vimos a chuva a cair pela janela, enquanto discutíamos política, cinema, literatura. Contou-me que tinha um sonho, sonhava ser escritor, viajar pelo mundo, falar com as pessoas e conhecê-las, porque se sentia só e o mundo para ele era como um cubo de Rubrik. Mostrou-me o que escrevia, eram só os seus pensamentos, como se a eles estivesse ligado e eles se escrevessem sozinhos na folha. Mostrou-me através deles que a vida era só uma viagem, uma jornada itinerante que devíamos percorrer o mais feliz possíveis porque acaba rápido. “Muitas vezes nem precisamos de morrer para ela acabar”. Ao falar com ele sentia-me inofensivo, frágil, como se a voz rouca dele, embrenhada em fumo de cigarro e bagaço, me fizesse tremer a cada sílaba e me levasse a um nível de pensamento que nunca pensei ter. Fez-me rever a vida e o que fazia dela. Através das suas folhas deu-me a conhecer um pouco mais dele mesmo e, por incrível que pareça, de mim também.

Ele foi-se embora depois, sem dizer nada mais. Esperei vê-lo nos outros dias, apanhei o mesmo autocarro durante meses, e ele não mais apareceu no seu lugar predileto com o seu bloco de folhas e caneta preta. Procurei-o por toda a parte, com o meu próprio papel no bolso e uma cabeça cheia de poesia para declamar e pensamentos novos para contar. Queria agradecer, abraçar o idoso com ar de sem-abrigo. Não consegui. A partir desse momento, contudo, nunca fui sozinho no autocarro. Falei com a mulher da frente que todos os dias leva uma saca com legumes e descobri que os levava para fazer sopa à mãe que está doente. Falei com o senhor de bigode ao meu lado que trabalha nos correios noturnos e dorme de dia e percebi o esforço que ele faz para levar comida para a família. Conversei muito tempo com o motorista que faz todos os dias dois turnos porque a filha está na universidade. Mas nunca mais achei aquele homem que tomei como alma-gêmea, como professor, que me contou a sua vida sem pedir nada em troca. Como se se tivesse desvanecido e deixado mil pessoas para me fazer companhia.

Dizem que depois de nos conhecermos verdadeiramente nunca mais nos encontraremos a sós connosco mesmos. Vejo agora que é verdade, só não sei se é feliz ou infelizmente. Talvez tenha falado simplesmente com o meu reflexo à janela do autocarro.

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