Crónica de um jovem adepto.

Não quero escrever um texto bonito, todo romantizado e cheio de adjetivos. Porque todos iriam lê-lo na diagonal e não é isso que se espera. Quero contar-vos a minha experiência enquanto adepto neste Euro 2016. Em bom português.

A minha crónica:

Ontem fui ao estádio. Não a Paris, mas a Leiria, estádio aberto para ver os jogos da seleção. Primeira vez este Euro que lá fui (e última), tinha visto sempre os jogos com amigos em casa ou no café. O estádio parecia-nos o apropriado nesse dia. Sentei-me na relva, o coração a tremer de ansiedade e os finos a descer a tentar acalmá-lo. Não queria pensar muito, porque pensar em demasia em coisas que não se tem capacidade de resolver não ajuda nada. Cantei o hino, como tinha feito nos seis jogos passados, para mim mesmo. Cantei, mas cantei de maneira a que só eu pudesse ouvir, a que só eu pudesse sentir, porque todos sentimos de maneira diferente. Abraçado aos meus amigos, sem a mão no peito mas com Portugal no coração. E começou o jogo.

Ronaldo por terra. Mau começo. O capitão é único. Mas a nossa seleção são 23 e todos sabem jogar à bola. A vontade de Ronaldo ia manter-se nos que estavam em campo, isso sabia eu. E os assobios dos franceses iam motivar-nos ainda mais.

Conhecem aquelas pontadas no coração quando vêm um filme de terror? Foi o que o Griezmann fez. Duas vezes. E o Gignac. Que puta de susto! Tremi. Muito. E que nos valha o Patrício. Disse logo a um amigo meu que ia ser o guarda-redes do Euro. E muito merecido! E depois disso, mais pontadas. De susto, de quase alegria com aquele livre do Guerreiro que era o golo do Europeu se descesse só mais um bocadinho. De conformação porque já todos esperavam os penáltis. De esperança porque essa nunca se perde. De amor, porque quando olhava para trás perdia-me no mar de gente que ali estava só para poder apoiar o país.

E então, golo. GOLO. GOLO CARALHO. É GOLO. TUDO AOS SALTOS. TUDO A ABRAÇAR-SE. CACHECÓIS NO AR. OS AMENDOINS A VOAR. UM AMIGO MEU A DIZER “FOI O ÉDER” COMO SE NÃO ACREDITASSE, E NÃO! A IRONIA. A SATISFAÇÃO. O ÉDER, O PATO FEIO, O MAL-AMADO, A REMATAR E A CALAR. FILHO DA MÃE. ACHO QUE NUNCA SALTEI TANTO NUM GOLO. Mais dez minutos.

Dez minutos. Ninguém se sentou mais. Todos de pé, bandeiras a esvoaçar, cachecóis a girar nas mãos. Eu agarrei a bandeira com força e não larguei. Dez minutos de aflição, coração a vibrar, mas já se sabia. Não íamos sofrer golo. Já todos sabíamos. Até os podíamos marcar. E então, acabou.

CAMPEÕES CARALHO. CAMPEÕES. BERROS, GRITOS, SALTOS, CÂNTICOS. O SPEAKER A INCENTIVAR. PESSOAS A GRAVAR. Confesso que deixei cair uma lágrima. Não sei porquê. Sei que senti um orgulho gigante no meu país. Nas pessoas que ali estavam. We are the champions nas colunas, todos a cantar. O hino. Aquele hino que eu não cantava em voz alta. Dessa vez foi diferente, e berrei o mais alto que consegui. Aquele berro que vem do peito. Portugal, “jardim à beira-mar plantado”, campeão europeu. Aquela história para contar aos netos, que vi o primeiro título de Portugal. Que o senti na pele, como os milhões que apoiam sentem. Mais música, nem sei qual é. Só sei que dancei, pulei, dei uns toques numa bola qualquer, abracei todos os meus amigos, um a um. É ser português, é ser-se assim.

            Obrigado Portugal. Obrigado a cada um, individualmente. Isso fica para outro dia. Mas obrigado por terem sido diferentes dos outros que estiveram no vosso lugar. A maior diferença neste seleção de 2016 para as seleções dos anos passados. Não vi um Ronaldo a passar-se porque a bola não chegou até ele. Não vi um Pepe à cabeçada porque um adversário lhe fez uma finta. Não vi um Nani a mandar um colega de equipa “pó caralho” quando as coisas não corriam bem. Vi uma equipa, onde um errava, erravam todos e todos juntos davam a cara à luta e corriam para todos juntos sacar uma bola. Onde todos jogavam para dar o melhor de si. Onde todos se agigantaram, remataram, lutaram, suaram e ganharam.

            Obrigado Sr. Engenheiro. Por teres ido buscar os mais velhos quando todos pediam os mais novos. Por teres jogado como sabes quando o que se espera que joguem não resulta. Obrigado por seres português, como se vê bem nas conferências e especialmente no banco. Obrigado por teres acreditado desde o inicio, quando quase ninguém acreditava. Obrigado Cristiano, capitão em seis jogos e treinador no último. Por seres o comandante que se esperava, não uma vedeta como fazem crer, mas o braço-direito do treinador e o único jogador que conheço que chora por não poder jogar mais. E obrigado, porque ter o prazer de ver a tua cara de felicidade, como se fosses um puto, essa cara de alegria gigante ao levantar a taça, ao correr para festejar com os teus companheiros, essa alegria de um garoto ninguém ta pode tirar.

            A taça é nossa. A lição de humildade que demos aos franceses, nós, os “nojentos”, os “que não tinham nada a fazer lá”. Que lhes tirámos um Europeu em casa e só nós sabemos o quanto dói. Mas isso não importa. Não importa o adversário. Não importa mais nada, se os balneários são bonitos, se o relvado agarra bem, se o hotel tem papel higiénico de folha dupla. O que interessou foi o nosso jogo. O que interessa agora, é que somos campeões. O que vai interessar daqui para a frente, é quantos mais Europeus e Mundiais vamos ganhar. Porque o que fica, acima de tudo, é que Portugal é um país sonhador e sem sonhos ninguém consegue voar.

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