Ode às Palavras

Palavras,
Quimeras de fogo,
Ardentes, demasiado tentadoras,
Dementes, quiçá, que invejam sentimentos
E fazem das suas presas devoradoras de momentos,
Socorro,
Elas fazem-me escrever, saem da minha mente
De forma pouco eloquente e desumana
Elevando os limites do crente à falta de querer viver,
De urbana e fácil compreensão,
Lentamente ofuscando o ser, entre mil maneiras
De pedir perdão.

Rufos batem,
De minuto a minuto,
Enquanto as palavras são muitas para descrever.
O som forte, inquietante,
Inquieta tanto que rasgo folhas para poder escrever.
E traço linhas, pontos negros, rasuras milhares,
E são minhas, contos negros, ternuras, expressares.

Por muito palavras posso escrever,
E ninguém entenderia.
Ainda ninguém entende, também.
Palavras não são fáceis de ler,
Todas têm ódio, raiva, rancor.

Palavras de amor.

E, se por muitas quimeras de fogo
E raios rompantes e cavalos alados
Forem as palavras,
Socorro.
Sou escravo de meia caneta,
Mas não socorro com fados,
E traçados errantes,
É tinta preta e versos soluçantes,
Embrenhados em vazios constantes
E becos errados.

Odeio odes. Odes de ódio.
Odes de ataraxia e ócio,
Louvores exclamativos,
Cuja única certeza é serem odes,
Ao desassossego entre os vivos.

Mas odeio por vocês,
Que me fazem odiar todas as linhas que escrevo,
E amar as que por aí li.
Palavras são dadas,
Emoções desconfiguradas pela ânsia do ler.
As que mais valem dinheiro,
São caras pelo prazer,
Que se tem poder escrevê-las.
Palavras caras são poucas
Já que nem todos podem dizê-las.

Ode(io) as palavras.

Vagas.

Frias.

Aquelas que se veem pelo olhar.

Quero palavras de mim para o mundo,
Odeio-as tanto que até as quero dar.

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“Being in a minority, even in a minority of one, did not make you mad. There was truth and there was untruth, and if you clung to the truth even against the whole world, you were not mad.”

in 1984, de George Orwell

Cravo

Um cano, uma flor – um cravo;
onde das pétalas emanava coragem,
vermelho-vivo amargurado;
como rainha, coroada
de música e desengano;
de caule tão fino,
e tão fino tal,
que era apenas o final.
Que bela flor que traziam,
tais canos de espingarda
nesse dia ao fim de tarde,
a nossa mais bela flor – liberdade.

Conselhos de um ex-caloiro II

Parabéns caloiro. Chegaste ao fim do teu primeiro ano. Do teu melhor ano. Espero que te lembres do que eu disse. E que todos esses jantares, esses cafés, dias perdidos à noite, finos, estudos, conversas de horas a fio e abraços sentidos, todos esses, espero que se tornem das tuas melhores memórias. Que possas ir dormir à noite sabendo que não deixaste nada para fazer, e que a cada dia que passa vais fazendo cada vez mais parte da cidade que te acolheu. Como eu te disse. Continue reading “Conselhos de um ex-caloiro II”

E de tanto gritar, vira-se cantor

Pergunto, a quem quer que tenha alguma vez visto um despique, ou mesmo uma simples praxe, se há algo que seja tão intenso como um curso inteiro a cantar. Ou, como se diz, a berrar, alto e bom som, tentando gritar mais alto que todos os outros, até se ficar rouco e vermelho de tanta garra. Não há quadro mais bonito na Praxe, para além do típico traçar da capa e Serenatas. Quando as vozes nem se afinam nem sintonizam, quando tudo pode correr mal e nem costuma correr bem, quando se vê as veias na garganta de tanto puxar uma música – é um momento mágico. Onde o que mais importa é berrar pelo curso, deitar tudo para fora, tripas, sangue, coração. Quando se bate no peito porque não se consegue exteriorizar mais o que se sente. Continue reading “E de tanto gritar, vira-se cantor”

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